Como é morar em Orlando, Flórida (opinião de uma família)

O Fernando participou da série Como é morar nos EUA escrevendo sobre como é morar em Orlando, Flórida e escreveu um post muito bacana. Aí a minha amiga Samya que está morando aqui em Austin e morou anos em Orlando com a família (marido e 2 filhos) me perguntou se poderia escrever sobre a mesma cidade, sob o ponto de vista de quem morou com crianças pequenas (já que o Fernando é um jovem solteiro). Eu falei que sim, lógico, até porque a opinião dela sobre Orlando é diferente da do Fernando. E vale sempre ressaltar (aparentemente não é óbvio pra todo mundo) que esses posts são sempre a experiência de cada pessoa em uma cidade. Tem gente que ama e tem gente que odeia um mesmo lugar, não tem certo e errado, apenas opiniões. O que é maravilhoso pra uns não é pra outros. Então vamos ver o que a Samya achou de morar em Orlando!

Seu nome, a cidade onde mora e há quanto tempo mora: Meu nome é Samya, vou falar sobre Orlando, Flórida, onde morei por 4 anos de 2009 a 2013. De lá viemos para Austin onde estamos há quase 1 ano e não pretendemos mais sair.

morar em Orlando é assim: Samya e os filhos curtindo o dia das mães em Clearwater, FL

Morar em Orlando é assim: Samya e os filhos curtindo o dia das mães em Clearwater, FL



Apresente a sua cidade: A maneira mais simples de apresentar Orlando é: Onde fica o Disney World Resort! Além do Epcot Center, Animal Kingdom, Hollywood Studios, Sea World, Universal Studios e muito mais! Lugar perfeito para grandes memórias de férias em família. Orlando se encontra no centro da Flórida, a uma hora em meia de carro da costa Atlântica, e cerca de 2 horas e meia do golfo do México. Toda a área era uma grande região de fazendas, onde um senhor chamado Walt Disney encontrou as condições ideais de preço, espaço e clima para investir em um projeto pretensioso. Todos nós sabemos como termina a história, certo? O turismo é hoje a grande indústria do local.

Quem mora com você? Moro com meu marido e meus dois filhos, 12 e 10 anos. Ah, e a nossa cachorrinha, raça um tanto indefinida, mais próxima a um Maltipoo.

Porque se mudou para essa cidade? Essa é uma longa história, vou tentar resumir: Depois de 10 anos na Califórnia decidimos voltar ao Brasil para estarmos perto da família. Com pais e sogros ficando mais velhos sentimos a necessidade de estar mais próximos. Não nos adaptamos e decidimos voltar para os EUA em menos de um ano. Como ainda queríamos estar mais perto da família optamos pela Flórida. Eliminamos Miami por causa da violência, eliminamos as praias por causa dos furacões. Pesquisamos escolas, criminalidade, e a melhor opção parecia ser Orlando. A cidade (ou subdivisão) em que morávamos, Hunter’s Creek, na grande Orlando, chegou a ser nomeada a 21a melhor cidade para se viver nos EUA em 2011.

Casa, apartamento, town home, onde mora e o que é mais comum na sua cidade: Morávamos em uma casa (single family home), o mais comum na região. O mercado imobiliário é extremamente atrativo em Orlando, especialmente na época em que mudamos, quando a quebra do mercado imobiliário bateu realmente forte. Orlando estava entre as 10 cidades com o maior número de foreclosures nos EUA. Aluguel, entretanto, já era um pouco mais difícil de encontrar. Como todos os que perderam suas casas se tornaram inquilinos, a demanda por aluguel é alta. Isso somado ao baixo preço dos imóveis torna o mercado imobiliário de Orlando muito atrativo. Nossa casa era uma delícia, seguindo todos os padrões de uma casa na Flórida – uma grande área, muito espaço, muito verde, piscina… Muito agradável.

Como é o transporte: O transporte público é ônibus e se resume a algumas vias principais e à área do centro. Orlando ocupa uma região enorme e é totalmente espalhada. Há imensas áreas de total vazio no meio da cidade. Você precisa de um carro, não tem jeito. Houve um dia em que dirigi 126 milhas sem sair da cidade, apenas levando meus filhos a 2 médicos diferentes em pontos opostos da cidade. Outro detalhe é que a estrutura de Highways é muito fraca. Existe apenas uma via expressa cruzando a cidade no sentido norte-sul, e está sempre congestionada na área do Downtown Orlando, não importa a hora.
Outro detalhe interessante são as obras nas ruas e rodovias. Na Califórnia e no Texas todos as construções em rodovias de maior movimento acontecem a noite, para diminuir o transtorno no tráfego. Não em Orlando. Os operários trabalham nas rodovias de 9 às 5, e só quando não está chovendo (o que acontece praticamente todos os dias por volta das 3 da tarde). É um grande transtorno! E não acaba nunca! Quando saí de lá en Junho de 2013 estavam trabalhando há quase 1 ano em um trecho de 3 quarteirões na John Young Pkwy, uma das principais vias da cidade. Para minha surpresa, quando estive lá este mês, a obras e o congestionamento continuam a todo o vapor, quase 2 anos! Dá até pra matar a saudade do Brasil!

Como são as escolas: Pesquisamos muito as escolas antes de escolher o lugar onde morar. Ficamos numa região onde a escola era considerada nota 10 de 10, ou A+. Mas rapidamente descobrimos que isso não é tudo. Nossa primeira falha foi não considerar que as crianças crescem. Vão da Elementary para a Middle School e de lá para o High School. O problema é que West Creek elementary ficava bem dentro da parte mais nobre do “bairro” de Hunter’s Creek, quase uma ilha da fantasia. Já a Hunter’s Creek Middle, onde meu filho foi aluno por 1 ano, atendia alunos vindos de 4 ou 5 elementary schools diferentes. Cai profundamente a qualidade do ensino, dos professores, o comportamento dos alunos e o interesse da escola em manter o bom comportamento dos alunos. Na middle school já era evidente o problema de drogas e gangs. Chegando no high school já era bem claro para todos na região que a única opção era gastar uma grana preta em escolas particulares (de 15 à 20 mil dólares por ano, por aluno), e estas ficavam a pelo menos 40 minutos de onde morávamos.
Outra coisa que descobrimos é que lá uma escola alcança a nota 10 forçando todos os alunos a se enquadrarem na linha de montagem direcionada à performance do teste padronizado, que acontece uma vez por ano, como quem segue uma uma bíblia. E forçando todos os que não se enquadram a saírem da equação, transformando a vida da criança e dos pais em um pesadelo, sem o menor escrúpulo, até que eles aceitem retirar aquela pedra do caminho, levando a criança para uma escola “menos exigente”.

Como é o clima: Muito, muito quente e muito, muito úmido. Nunca caia na tentação de acompanhar aquela visita do Brasil aos parques em pleno Julho-Agosto. O calor e as filas vão fazer você romper a amizade.

Família curtindo o Kennedy Space Center

Família curtindo o Kennedy Space Center

Qual a indústria mais forte da região: Sem dúvida alguma o turismo. Além dos famosos parques, Orlando só perde para Las Vegas em número de convenções e quartos de hotel. O comércio de varejo é muito forte, relacionado ao turismo e e turista brasileiro está à frente da locomotiva. A maioria das lojas tenta contratar algum vendedor que fale português, os outlets e shoppings tem mapas e sinalização em português, e até livrinho de descontos especiais para turistas brasileiros, que segundo jornais locais gastaram $62 milhões em Orlando só nos últimos 3 meses. O mercado imobiliário também tem se tornado extremamente atrativo para investidores nos últimos anos, com grande procura a muitas áreas ainda a serem desenvolvidas.

Qual é o preço médio de uma casa de 3 quartos na cidade (pra comprar ou alugar): Na região onde eu morava uma boa casa de 3 quartos estaria de faixa de $250 à quase $300 mil. Pode ser bem mais barato em outras regiões da cidade, na mesma faixa em Dr Philips um pouco mais caro em Lake Nona. Bem mais caro em Windemire ou Winter Park, onde estão as casas de 1 milhão de dólares.

Como é o custo de vida, exemplos de preços de coisas do dia a dia (leite, ovos, pão, gasolina, estacionamento, escolha alguns ou pode falar de outros também): O custo de vida é bem razoável, principalmente para alguém que tinha vindo há pouco da Califórnia. Também não percebi grandes diferenças nessa área entre Orlando e Austin.

O que vocês fazem no final de semana, programas preferidos: Adivinhou errado, não era ir para os parques da Disney! Preferíamos relaxar no fim de semana. O programa preferido era ir para as praias, de preferencia no golfo. Encontrar um hotel legalzinho na praia em Clear Water ou em Sand Key então, o paraíso! Uma vez estávamos todos curtindo a águas mornas, calmas e totalmente transparente e meu caçula me disse que aquele momento era tão perfeito que parecia um sonho! É realmente incomparável, um cooler com cerveja e suco embaixo do guarda-sol, snacks para as crianças, e só curtir o tempo passar naquela calma, ouvindo o barulho do mar…E pra completar, a noite ir comer caranguejo no Crabby Bill, em Indian Rocks Beach. Receita garantida para quatro rostos relaxados e felizes voltando para casa no domingo!

Sand Key Beach, em Clearwater, Flórida

Sand Key Beach, em Clearwater, Flórida

Como é a comunidade brasileira na cidade? O que a gente ouve muito por lá, e que é bem verdade, é que Orlando é o quintal do Brasil. Nós brasileiros tomamos conta da cidade. Tem até uma região entre a Kirkman Rd. e a International Dr. que meus filhos chamam de ‘Braziltown’. “Mãe, vamos comer sonho com açaí no ‘pão bom’ lá no Braziltown? Era um dos programas preferidos. Eles estavam falando da padaria Pão Gostoso, que fica em um pequeno strip mall onde voce também encontra um mercado brasileiro, salão de beleza brasileiro, restaurante brasileiro, loja de ‘importados’ para brasileiros e por aí vai. Na região você ainda encontra contadores, agência de viagem, vários restaurantes, cabeleireiros, lanchonetes e até um boteco. Até o gerente do Bank of America naquela região é brasileiro. Para mim, o mais incrível foi o dia em que fomos ao contador abrir uma empresa, ao banco abrir uma conta, fechamos a compra de nossa casa e fomos almoçar, tudo isso falando apenas português! Todas as pessoas com as quais interagimos naquele dia eram brasileiras, e na verdade era assim na maioria dos dias.

Prós de morar nessa cidade: Estar mais perto das praias maravilhosas do golfo, sem estar tão vulnerável aos furacões. A facilidade de se conseguir qualquer coisa brasileira – de picanha à tapioca – é só entrar no carro e ir buscar. E estar a apenas oito horas de vôo do Brasil.

Concerto na piscina de casa

Concerto na piscina de casa

Contras de morar nessa cidade: Bem, aqui é onde fica tudo mais delicado… Alguns pontos são lugar comum, mas outros são opiniões pessoais. Vou relatar o meu ponto de vista lembrando sempre que cada um é que sabe onde o sapato aperta. Relato apenas a minha experiência e tenho total consciência que não domino a verdade.

Vamos começar pelas escolas. Não percebi uma grande falta de recursos para a educação como, por exemplo, na Califórnia (onde o sistema público simplesmente não funcionaria sem a participação financeira da comunidade). Entretanto, o sistema público de educação de toda a Flórida deixa muito a desejar. É fortemente atado aos resultados do testes padronizados (FCAT), a tal ponto que esses resultados determinam as verbas das escolas e até os salários de cada professor. Quando se adiciona a isso currículo defasado e professores desatualizados e desmotivados (claro que há excessões) o resultado é um sistema educacional que não vê o aluno como indivíduo, em que o valor de cada estudante é determinado pela nota alcançado no FCAT. Estou muito feliz de ter removido meus filhos deste sistema.
Segurança – Durante os quatro anos que morei em Orlando, dois acontecimentos locais tomaram proporção nacional, talvez até Internacional, e me encheram de tristeza, revolta, vergonha e até medo. O primeiro foi o caso da Casey Anthony, que matou a filha e foi absolvida, mesmo que todos saibam que foi ela. Ela se tornou inimiga nacional e está escondida até hoje. Outro foi o caso Trayvon Martin, o jovem que foi assassinado no estacionamento do prédio em que morava, com um pacote de Skittles em uma mão, um Slurpy na outra. O assassino alegou legítima defesa usando “stand your ground law” e também foi absolvido. Tudo isso aconteceu em Orlando. No noticiário todas as noites alguém mata alguém no estacionamento de um Wal-Mart ou Dixie Market. E porque não? Já que a justiça não funciona. No Final do ano passado também em Orlando um homem abriu fogo contra um carro cheio de adolescentes num posto de gasolina porque eles estavam com a música muito alta. Matou um dos jovens e feriu outros. Na maior cara de pau, e porque sabia que podia, alegou “stand your ground law“. Porque não?
Muitas vezes tive a sensação de que não estava mais nos EUA, que estava numa área esquecida, tipo ‘embaixo do tapete’ dos EUA, para onde se varre a sujeira que a gente não quer que ninguém veja. Existe, claro, toda a parte linda, maquiada, literalmente feita-à-mão de Orlando – The City Beautiful (A Cidade Bela) é o slogan da cidade. Mas tem também todo o descaso de uma prefeitura que atrapalha o trânsito com obras intermináveis em horário de pico, a predominância de hospitais que deixam uma criança esperando 4 horas em uma emergência, e de médicos e hospitais que vêem pacientes como números e cifras e não como seres humanos. O descaso com a educação. A falta de justiça…

Tive a nítida impressão que Orlando possui quantidades abundantes de dois tipos de indivíduos: aqueles quase esquecidos pelo progresso, que em muitos casos não tem condições ou informação suficiente para lutar pelos seus direitos. E aqueles completamente fúteis, que acreditam ser bons demais para perder tempo se importando com qualquer outra coisa que não seja seus próprios interesses.

Quer ficar ou mudar pra outro lugar, e por quê: Mudei. Para Austin, por todos estes motivos acima e mais alguns. Estamos muito felizes! Sentimos falta de alguns amigos, da praia, mas agradecemos a Deus todos os dias por uma decisão tão acertada. Os valores aqui são mais o que a gente procurava, as escolas então, precisaria de outro texto só para elogiar. Estamos muito felizes. E a sorte é que já estávamos acostumados com o calor!

Obrigada, Samya! Eu acho sempre legal ver os prós e contras de uma cidade, principalmente porque a maioria das pessoas só conhece o lado turístico e pensa que morar em Orlando seria um paraíso (e como a gente conversou, tem gente que acha mesmo, cada um tem a sua ideia de paraíso). Que bom que vocês gostaram de Austin, a gente gosta muito daqui :-)

Leia outros posts da série Como é morar nos EUA:
Como é morar em Pittsburgh, Pennsylvania
Como é morar em Las Vegas, Nevada
Como é morar em Orlando, Flórida
Como é morar em Chicago, Illinois
Como é morar em Birmingham, Alabama
Como é morar em Raleigh, Carolina do Norte
Como é morar em Austin, Texas
Como é morar em Denver, Colorado
Como é morar em Princeton, Nova Jersey
Como é morar em Washington DC, a capital americana
Como é morar nos subúrbios de Dallas, Texas
Como é morar nos subúrbios de San Francisco, Califórnia
Como é morar em Stratford, Connecticut
Como é morar em Houston, Texas
Como é morar nos subúrbios de Salt Lake City, Utah
Como é morar em Atlanta, Georgia
Como é morar nos subúrbios de Boston, Massachusetts
Como é morar nos subúrbios de Detroit, Michigan
Como é morar em Los Angeles, Califórnia
Como é morar nos subúrbios de Seattle, Washington
Como é morar em Nova York
Como é morar em Phoenix, Arizona
Como é morar em Miami, Flórida

Outros posts como este em: Vivendo nos States

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  • Patricia Longo Tayão. 28/04/2014, 12:06

    Nossa, fiquei um pouco chocada com esse relato, pois me senti tão segura na cidade nas vezes em que lá estive, acho que tudo funciona tão bem; nada melhor do que a visão de quem mora no lugar!

    Responder
  • Priscila Balbino 28/04/2014, 12:29

    Excelente post, muito esclarecedor.
    Pelo menos para mim, com dois filhos, me mudando em breve aos USA!

    Responder
  • Jana Maciag 28/04/2014, 15:32

    Otimo relato! Orlando para mim só a passeio.

    Responder
  • Debora 29/04/2014, 13:19

    Ótimo post e que mostra a realidade da cidade com todas as letras. O turista vê a parte boa e fica meio restrito ao eixo dos parques temáticos e compras. A realidade é bem outra e a criminalidade vem crescendo bastante. Estou no aeroporto de Orlando, voltando ao Brasil e posso dizer que todos os dias o noticiário está bem movimentado. Ontem mesmo, quando voltei ao meu carro, no estacionamento do shopping, meu porta malas estava aberto!!!!

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  • Angélica 12/05/2014, 11:31

    Oi Luciana, estou de mudança para Flórida e gostei muito do relato da Samya. Ela teria algum canal de comunicação para que eu tirasse algumas dúvidas em relação as escolas de lá?
    Acompanho sempre seu blog e gosto bastante.
    Um abraço ;)

    Responder

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