Não me dêem parabéns pelo dia de hoje, por favor. O problema do dia internacional da mulher (que aliás ninguém aqui nos EUA sabe que existe), é que virou uma “celebração do sexo feminino” enquanto deveria ser um dia para lembrar todos os problemas ainda enfrentados pelas mulheres e o que está sendo feito para mudar esse cenário. Compare por exemplo com o dia mundial de luta contra a AIDS. É assim que o dia internacional da mulher deveria ser encarado. Um dia para analisar os progressos e o que deve ser feito para dar condições de igualdade a milhões de mulheres no mundo. Aliás, acho que o problema começou com o nome. Deveria ser o dia de luta pela igualdade das mulheres ou algo do tipo.
Receber parabéns por ser de um sexo e não de outro por si só já é discriminação. O problema é que quando se fazem coisas desse tipo para minorias, ninguém vê o problema, porque os “coitadinhos” já sofrem tanto que “merecem” um dia especial ou qualquer outro tratamento especial. Não sou coitadinha por ser mulher, não quero tratamento especial, quero que me respeitem como ser humano, pelo que sou, independente do sexo. Parabéns deve ser dado quando se conquista alguma coisa. Dar parabéns a alguém por algo que não se teve escolha, um mero acaso, não tem valor nenhum.
Enquanto ocorrem as celebrações puramente comerciais, a Maria colocou algumas estatísticas assustadoras no blog dela, que repito aqui:
Versão da coluna de Ulrika Kärnborg no caderno de cultura do Dagens Nyheter de hoje (em sueco):
“As mulheres são 15% dos parlamentares do mundo todo. De acordo com uma recente pesquisa realizada no sudoeste da Turquia, 37,4% da população acredita que as mulheres devem ser mortas em caso de traição, enquanto 21,6% acha que basta cortar o nariz ou uma orelha. No congresso americano, composto por 535 pessoas, são 16% do sexo feminino. Uma enquete feita por hospitais em Estocolmo em 2002 constatou que 63% das mulheres suecas de 21-24 anos enfrenta dificuldades psicológicas.
Na China realiza-se todos os anos mais de sete milhões de abortos, sendo que em 70% dos casos o feto abortado é do sexo feminino. Na Somália, 98% das meninas tem seu clítoris retirado e a vagina costurada, num ritual que causa muitas vezes a morte. Quase um terço das mulheres da Rússia tem um salário inferior à quantia mínima para sobrevivência. Na Suécia as mulheres esperam mais tempo do que os homens quando chamam uma ambulância.
No Iêmen as mulheres precisam ter a permissão de maridos, pais ou irmãos para sair do país. Mulheres suecas recebem medicamentos e tratamentos mais antigos e baratos do que os homens. Todos os dias mais de 140 estupros chegam ao conhecimento da polícia sul-africana, que escolhe fazer nada. A cada ano cerca de 10 mil mulheres russas são mortas a pancadas por seus maridos ou parentes. Na Suécia quase 50% das mulheres diz ter sido exposta a atos de violência de algum homem depois dos 15 anos de idade.
Em 2001 uma pesquisa mostrou que 80% das mulheres que trabalham na Cidade do México já havia sido exposta a algum tipo de abuso sexual em seus locais de trabalho. As mulheres americanas recebem cerca de 80% dos salários de seus colegas do sexo masculino. As mulheres suecas recebem 90%. Numa pesquisa realizada em 1996, 30% dos homens indianos afirmou ter batido em suas esposas. A maioria das pessoas que deixam de ir ao trabalho com sintomas de estresse na Suécia é do sexo feminino.”
A Maura também colocou no blog um texto alarmante, sobre como em alguns países asiáticos os pais ao saber do sexo do bebê, escolhem fazer um aborto caso seja uma menina (em inglês).
E não, Bárbara, você não é a única mulher que acha o dia internacional da mulher um absurdo. E concordo que os estereótipos mencionados infelizmente ainda são verdadeiros.
Enquanto a situação continuar assim, essa história de parabéns e florzinhas só está tapando o sol com a peneira.