Desde que eu me entendo por gente queria ter filhos, na minha cabeça amamentar sempre foi natural, o caminho lógico. Mas eu cresci ouvindo a minha mãe falar que não teve leite suficiente e quando adolescente, vi uma das minhas tias passar pela mesma dificuldade; então eu ficava sempre com medo que isso fosse acontecer comigo também.
Depois de muitas dificuldades, finalmente eu estava grávida e tudo corria bem, comecei a ler e pesquisar sobre amamentação, para me armar ao máximo com informações e quem sabe evitar possíveis problemas. Meus guias foram o The Breastfeeding Book, do Dr. Sears e sua esposa Martha, que até hoje uso como referência, e os sites da La Leche League, que é uma organização internacional que há muitos anos oferece informação e suporte a mães que escolhem amamentar (eles tem reuniões para grávidas, mães e bebês) e as Amigas do Peito, uma organização brasileira com o mesmo fim. Tanto o livro quanto o site da LLL são um pouco radicais (vou falar mais sobre isso depois) mas os conselhos são nota 10.
Julia nasceu, eu precisei de algumas horas para me recuperar e então começamos a nossa jornada juntas - ela foi para o peito pela primeira vez para começar a tomar o colostro, tão importante para recém-nascidos. E eu que tive medo por tanto tempo e me preparei para o pior fiquei surpresa que ela começou a mamar tranqüilamente, não senti dor nenhuma, e dormiu ali nos meus braços logo depois. Imaginei que fosse sorte de principiante, mas fiquei feliz que tínhamos começado bem.
Ela dormia e acordava de 2 em 2 horas, e quando acordava chorando, lá ia para o peito. Mamava um pouco e caía no sono de novo. Passamos assim o primeiro dia e noite. Na tarde do dia seguinte, a enfermeira que veio ver se estávamos bem disse que o cocô da Julia já era de transição - o que significava que o colostro estava dando lugar ao leite. E foi mesmo, meu leite chegou em menos de dois dias. Muitas vezes o leite pode demorar até uma semana para chegar, e nesse meio tempo muitas mães se vêem em uma posição difícil com hospitais e familiares pressionando para dar mamadeira com fórmula, mas existem alternativas que profissionais da área podem sugerir. Não sei no Brasil mas aqui nos EUA temos consultoras de lactação, que são profissionais que trabalham em hospitais para justamente ajudar as mães a contornarem esses problemas e amamentarem seus bebês. Uma consultora vinha me ver todo dia e eu tirava qualquer dúvida com ela, foi ótimo.
No terceiro dia depois do parto comecei a me sentir mal. Muito mal. Os dias seguintes foram muito difíceis, um dia eu vou fazer um post para contar essa história toda, mas o diagnóstico foi uma depressão pós-parto muito severa. Os médicos todos (nessa altura já tinha o obstetra, psicóloga, assistente social, psiquiatra e pediatra na jogada) me pressionaram para parar de amamentar, porque uma parte fundamental do tratamento são no mínimo 6 horas de sono, e sono picado em pedaços para alimentar um bebê não conta. Mas para mim, que estava me sentindo completamente desconectada do mundo e principalmente da minha filha, a amamentação era a única ligação que nós tínhamos, e me agarrei a ela com unhas e dentes. No dia que tivemos a primeira consulta com a pediatra, apenas 4 dias após o parto, Julia já estava ganhando peso. Ela elogiou muito e fiquei feliz que em meio a todos os problemas alguma coisa estava dando certo.
No final da primeira semana montamos um esquema em que o Gabe e meus pais davam uma ou duas mamadeiras para a Julia durante a noite, assim eu podia acordar menos vezes e dormir um bloco de horas seguidas que os médicos aceitaram como eficaz. Fiquei com medo da mamadeira boicotar a amamentação e do meu leite diminuir e secar, mas a Julia passava da mamadeira pro peito com facilidade e felizmente a quantidade de mamadas durante o dia manteve a minha produção de leite estável. Eu também passei a tirar leite com uma bombinha elétrica e guardar na geladeira, assim eles podiam dar a mamadeira para ela com o meu leite e eu aumentava um pouco a demanda durante o dia para compensar as mamadas perdidas da noite, assim a minha produção não sofria tanto.
Mesmo nos dias que eu não queria fazer nada a rotina era amamentar a minha filha. Ela sempre foi super devagar, levava mais de uma hora para mamar (mamava alguns minutos, dormia, eu a acordava, ela mamava mais um pouco, repetia a seqüência) e mamava de 2 em 2 horas, então realmente ela passava mais tempo comigo mamando do que qualquer outra coisa. Daí para frente eu fui me tratando e melhorando, Julia foi crescendo e engordando, e a vida foi entrando nos eixos.
Quando voltei a trabalhar 5 meses depois, eu levava a bombinha para o trabalho e tirava leite duas vezes durante o expediente para manter a demanda (ter a quantidade de leite adequada depende quase que totalmente de manter a demanda, se o bebê não mama a mensagem para o cérebro é que o corpo não precisa produzir tanto, e aí produção cai). A Microsoft têm “Mother’s Rooms” que são salas com uma fechadura com senha que só as mães tem, e lá dentro tem tudo o que você precisa para tirar o leite e armazenar durante o dia até a hora de levar para casa.
Depois que saí da Microsoft e passei a trabalhar de casa, ficou mais fácil, e amamento a Julia durante o dia tranqüilamente. Ela vai fazer um ano em alguns dias e até hoje só teve 3 resfriados - benefício dos anticorpos presentes no leite materno. Algumas pessoas me perguntam quando vou parar de amamentar, e a resposta que tenho agora é que eu ainda não sei. A Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação durante os 2 primeiros anos, então se a Julia quiser mamar até lá e eu tiver leite o suficiente para isso, vamos continuar. Para mim e para ela, a amamentação significou união e saúde. Tem motivo para parar?
Algumas coisas que eu acho importantes lembrar: existem situações que impedem as mães de amamentar. O marido, família e amigos devem apoiar a mãe na sua decisão. Ajudá-la a resolver o problema, se for possível, mas reconhecer que não adianta forçar uma mulher que está sofrendo e não quer amamentar e causar problemas emocionais maiores por isso. Eu acho abominável a tática da culpa. Na minha opinião, uma pessoa bem informada e que tenha recursos para resolver os problemas vai amamentar com sucesso. Mas tem muitos livros e sites por aí que ficam aterrorizando as mães de tal forma que elas acham que falharam como mães se não amamentaram seus filhos (o livro que eu li e o site da LLL são um pouco chatos nesse aspecto). Todas as mulheres deveriam ter a chance de amamentar - com acesso a informação e suporte emocional e médico. Mas ser mãe é muito mais do que amamentar ou não.
Aqui nos EUA ainda entra a pressão social - amamentar em público é tabu. Volta e meia a gente vê uma notícia ou ouve falar de uma mulher que estava amamentando em um restaurante ou outro estabelecimento que foi convidada a se retirar. As pessoas se sentem incomodadas. Muitas colegas americanas que amamentaram ouviam comentários terríveis de familiares. Nenhuma delas amamentou por mais de 6 meses, a maioria parou com 3 ou 4 meses por causa da pressão social. É triste. Eu particularmente sempre me preocupei em não me expor enquanto amamentava porque não queria ter que ouvir nenhum absurdo, então sempre usei uma capa chamada Bebe au Lait quando amamentava em lugares públicos. Mas isso foi uma escolha minha, e nenhuma mulher deveria ser obrigada a parar de amamentar porque alguém está incomodado em ver um bebê mamando.
Enfim, eu não sei o que teria sido de mim ou da minha relação com a Julia se não fosse a amamentação. Mais do que saúde, a ligação emocional foi fundamental. Conversando com algumas amigas que tentaram amamentar e não tiveram a mesma sorte, o que percebi foi que normalmente elas vinham de famílias que tinham tido sucesso na amamentação e portanto não pensaram que fossem ter nenhum problema, então hoje sei que acesso a informação é fundamental nesse processo. Se você está grávida e quer amamentar, aconselho então a se informar bastante - assim se alguma coisa der errada você já sabe qual é o problema - e se der tudo certo, melhor ainda!
UPDATE: Acessórios para mamães que amamentam: Lily Padz, ótimos protetores de silicone e My Breast Friend, uma almofada para posicionar o bebê corretamente (apesar que eu usei pouco porque sempre preferi segurar a Julia sem travesseiro nenhum mesmo).