Depois ninguém entende porque os americanos são tão nacionalistas: o problema começa na escola. Você começa a ler, pensa que os professores estão tentando promover um debate sem ser parciais, mas depois os mesmos professores começam a desfiar um festival de absurdos. Coitados dos estudantes, se não tem pais para esclarecer as coisas em casa; e se os pais não passaram pela mesma lavagem cerebral quando estavam na escola. Ao invés de ensinar que a guerra é a última solução, ensinam que os valores americanos são tão importantes que devem ser defendidos a qualquer custo, mesmo em uma guerra. Com professores como esses, quem precisa de mídia escondendo as manifestações pela paz?
Mas o maior problema, e isso nós brasileiros não entendemos porque não temos uma situação histórica como a deles, é que grande parte da população confia de que tudo o que o governo faz, é na melhor das intenções. Até mesmo o pessoal que é contra a guerra pensa assim. São raríssimos – só conheço uma pessoa – os americanos que desconfiam totalmente do governo, que pensam que eles não estão mesmo nem aí pra nada, só querem dinheiro e pronto. Parece inocente? De boas intenções o inferno está cheio? Concordo, mas isso porque sou brasileira, e vivi a vida toda em um país onde o governo nunca serviu ao povo, e sim aos seus próprios interesses. Desde pequena ouvia o meu avô falar que político é tudo ladrão e que isso nunca ia mudar, que nem os meus netos veriam um governo que se preocupasse com os interesses do povo. Então, para nós, brasileiros, essa confiança no governo e suas boas intenções é quase uma piada.
Só que aqui, bem ou mal, um país de mais de 250 milhões de pessoas, os serviços públicos existem, a grande maioria das pessoas tem casa para morar, comida na mesa, escola para os filhos, coisas que no Brasil são um sonho para mais de 50 milhões de pessoas que vivem na miséria. As pessoas aqui aprenderam a confiar nas boas intenções do governo porque tem resultados para justificar, e então essa pregação das escolas e da mídia encontra ouvintes que estão preparados para aceitar a história. E é claro, todos os deslizes da política externa, que são os motivos do sentimento que vem crescendo no mundo contra este país, são deixados de lado. Um aluno perguntou ao professor “por que eles nos odeiam” (referindo-se ao Iraque), e ao invés da resposta ser todas as políticas externas absurdas dos últimos sei lá quantos anos, é a ladainha simplista “o ditador governante malvado que tem lá fez lavagem cerebral neles”. Ah sim, e ele fez no mundo todo também?
Mas isso as crianças e adolescentes não vão saber.