Puxaram o nosso tapete, de novo
July 27th, 2010 by Luciana MisuraNa sexta-feira passada tivemos a notícia que perdemos nosso bebê. Eu estava grávida de 10 semanas, quase acabando o fatídico primeiro trimestre (faltavam duas semanas apenas), tudo estava indo bem. Já tínhamos visto o bebê em ultrassom, crescendo bem, coração batendo, mexendo bracinhos e perninhas. De repente não me senti bem, liguei pro médico, as enfermeiras me mandaram ir lá fazer uma ultra só pra ter certeza que esteva tudo certo. E não estava. O coração já não batia mais. Foi um choque duplo, primeiro porque estava indo tudo super bem, todas as ultras mostravam o bebê crescendo nas datas certinhas, e segundo porque depois da nossa maratona anterior que terminou quando a Julia nasceu, achamos que tínhamos finalmente resolvido esse problema. Pra quem não acompanhou a história, o resumo: eu tive três abortos espontâneos, muitos testes com especialistas, uma cirurgia pra remoção de um septo uterino e endometriose e finalmente fiquei grávida da Julia.
Já escaldada pelas experiências anteriores, não contei pra quase ninguém que estava grávida. Pouquíssimas pessoas sabiam, estava esperando acabar o primeiro trimestre pra anunciar. Sinceramente eu estava preocupada mas um pouco mais confiante já que o problema tinha sido dado como resolvido, mas como sempre existe a chance de uma gravidez ter problemas genéticos que não dependem de nenhum outro fator, fiquei quieta. A cada ultrassom positiva a gente ia ganhando mais confiança, e na última, com 9 semanas e o bebê mexendo, o médico até nos deu um videozinho. Nunca tínhamos chegado nesse ponto em nenhum dos 3 abortos espontâneos anteriores, somente com a gravidez da Julia vimos um bebê tão desenvolvido assim. E aí a surpresa.
Mas sinceramente dessa vez não estou achando melhor não ter contado pra ninguém. A única pessoa que realmente não sabe e que me sinto feliz por não ter contado é a Julia. Ela realmente não precisa saber, não entende ainda, então melhor assim. Espero que as pessoas que estão lendo e que nos conhecem pessoalmente tenham a sensibilidade de não comentar o assunto na frente da Julia. Mas de resto estou achando muito ruim dessa vez ter que dizer que está tudo bem quando não está. Não gosto, soa falso, está me incomodando. Então resolvi falar no assunto.
Dessa vez a situação é bem diferente, claro. Temos a Julia e isso ajuda muito. Quando estava passando pelos 3 abortos espontâneos as perguntas que martelavam na minha cabeça além das razões biológicas eram se eu conseguiria ter um filho algum dia, se seria mãe, o que o futuro nos reservava. Dessa vez essa pressão não existe, então por mais que a gente tenha ficado muito triste pelo bebê, o peso nos nossos ombros é menor, o impacto é outro. E quem tem uma criança de quase 3 anos em casa fazendo gracinhas o dia inteiro sabe como não dá pra ficar triste por muito tempo. Pelo menos isso.
O meu médico aqui também ajudou muito, finalmente encontrei uma clínica que poderia estar no Brasil, que tem um atendimento que se preocupa com a parte emocional, em como você está se sentindo, e não só com a parte física. Em nenhum momento fiquei dias, semanas em dúvida. O atendimento foi sempre imediato, e na sexta-feira quando liguei de manhã me sentindo estranha, o meu médico nem estava na cidade e as enfermeiras falaram pra eu ir lá mesmo assim que elas iam me encaixar pra uma ultrassom só pra eu poder passar o final de semana tranquila (nós íamos viajar na sexta a noite pra visitar uns amigos em Dallas, e eu estava com medo de me sentir pior durante a viagem). Não tenho palavras pra agradecer a atenção de todo o pessoal da clínica. Isso no Brasil pode ser comum mas aqui nos EUA a resposta padrão é sempre “isso é normal, você tem que esperar”. E aí as mulheres ficam esperando morrendo de ansiedade por dias, semanas, até que finalmente alguma coisa muito errada aconteça. Felizmente dessa vez não tive que passar por essa ansiedade. Recomendo muito essa clínica pra todas as minhas amigas de Austin, em nenhum dos lugares onde morei nos EUA encontrei nada parecido (e nem na outra clínica que fui em Austin antes dessa). Sofri muito das outras vezes por pura falta de compaixão dos médicos e enfermeiras daqui.
Ontem tive que ir pro hospital para fazer uma curetagem, o bebê foi removido e será testado pra ver se tinha algum problema genético que possa ter causado o aborto. O meu médico chegou já me perguntando se a gente queria fazer uma última ultra ali mesmo só pra todo mundo ter certeza (eu ia pedir mesmo, mas nem precisei, eles iam fazer na sala de cirurgia mas ele quis fazer ali pro Gabe ter a chance de ver também). Ele nos sugeriu vários testes novos pra fazer com um especialista que trabalha em parceria com a clínica, testes que não estavam disponíveis em 2006, ficamos aliviados que não vamos precisar brigar por testes dessa vez.
Sinceramente não sei ainda o que pensar disso tudo, ainda estou meio que em choque, pode ser que dessa vez tenha realmente sido uma anomalia de verdade e que não vá acontecer novamente, mas é tudo muito desgastante. Vamos pesquisar, ver o que conseguimos descobrir, sabemos que a Julia está aí saudável então ela é a prova de que é possível. E por favor, não estou atrás de comentários no estilo “Deus sabe o que faz” ou “vai dar tudo certo”, porque ninguém sabe o por quê de nada e como isso vai terminar. Só estou escrevendo isso porque está entalado na garganda desde sexta, passei a noite sem dormir pensando nisso tudo, e escrever foi o remédio que encontrei.



Obrigada, estamos melhores, contando os dias pra ir ao Brasil agora e cabeça ocupada é sempre o melhor remédio.
Nisa, te mando um email.
Lu, poxa sinto muito. Nao tinha lido antes. Mas como foi dito, vc sabe que pode pois teve a Julia, entao logo logo tudo dara certo de novo Lu. pensando positivo, se cercando de bons profissionais e curtindo sua gatinha tao linda, o tempo vai arrumar tudo. Alias muitos parabens pra ela!!! ta muito linda!! muitos muitos beijos Lu. So e gang.
Oi Luciana, achei o seu blog pois estava em busca de coisas sobre viagem com crianças e acabei esbarrando nesse post. Já faz um tempo mas queria comentar. A mesma (ou quase a mesma) coisa aconteceu com uma amiga minha. Ela tem quase 35 levou tres anos tentando engravidar e acabou descobrindo que tinha um problema e só engravidaria por IVF. Com 33 anos fez IVF e engravidou sem problemas (transferindo apenas um embrião). O bebe nasceu super saudavel e quando a menina estava com um ano e meio minha amiga resolveu engravidar denovo. Descongelou mais um embrião implantou mas não deu certo. Tentou denovo mas 4 dos 6 embriões restantes não resistiram ao descongelamento e eles implantaram os dois que sobraram. Somente um vingou, a gravidez estava indo super bem e quando ela foi fazer a primeira ultra do segundo trimestre veio a bomba. O coração não estava batendo e provavelmente tinha parado logo depois que ela fez ultra anterior as 10 semanas de gestação.
Foi um baque muito grande pra ela, já que já tinha passado pelo risco do primeiro trimestre e principalmente sabendo que ia ter que passar por todo o (very painful and uncomfortable) processo do IVF. Isso aconteceu no final de março e em junho ela fez o IVF e agora esta gravida de quase 8 semanas tudo correndo muito bem. O feto que ela perdeu assim como o seu também tinha uma deficiencia genetica e por isso foi abortado.
Só queria compartilhar que ela passou pelo mesmo problema e conseguiu engravidar denovo. Achei que isso poderia te inspirar de alguma maneira. Boa sorte e parabéns pela sua filha, ela é linda!
Obrigada Sô! Queria ter mais tempo no Brasil pra gente visitar vocês
Carla, obrigada, boa sorte pra sua amiga!