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Shirakawa-go, uma vila que parou no tempo

Abril 15th, 2006 by Luciana Misura

Já que vimos as procissões do dia e a noite ontem, resolvemos passar o dia em Shirakawa-go, uma vila de casas históricas que fica a duas horas de ônibus de Takayama.

No caminho da estação, fomos surpreendidos por um grupo com roupas do festival carregando um altar pequeno e parando em frente de cada uma das lojas e chacoalhando o altarzinho animadamente. Tentamos perguntar porque eles estavam fazendo aquilo mas eles não entenderam, foram simpáticos e fizeram o Gabe colocar a camisa do festival e carregar o altarzinho também, haha. Depois descobrimos que somente durante os dois dias do festival esse altar é transportado pela cidade para trazer um bom ano para os moradores, e era isso que eles estavam fazendo. E eles estavam chacoalhando pra “animar” os moradores, como nos explicou a menina do centro de informações da estação.

A viagem de ônibus tem paisagens bem bonitas, as montanhas ainda estavam com bastante neve, a estrada vai margeando um rio e uma represa, inúmeras cachoeiras deságuam nessa represa.

As casas de Shirakawa-go se chamam gasso-zukuri, são feitas de madeira e tem telhados enormes feitos de um tipo de folha larga e bem comprida. Essas casas foram utilizadas para a produção de seda, as famílias viviam no andar térreo e os dois ou três pisos do sótão eram usados para criação do bicho da seda e produção de fios. As casas são patrimônio histórico e cultural mundial, apenas 50 delas ainda estão de pé. Para trocar um telhado destes, 200 pessoas trabalham por dois dias, prendendo as folhas na estrutura de madeira com cordas.

Andamos pela cidade, vendo a neve ainda derretendo nos jardins, os vários laguinhos com carpas enormes espalhados por entre as casas, os detalhes de cada uma. Fizemos o tour na casa Nagase, muito bem preservada. Lindos os desenhos variados nas portas, as maçanetas sutilmente decoradas, entalhes de madeira unindo a parede ao teto. Sentamos ao redor do fogo para tomar chá e esquentar um pouquinho antes de subir as escadas super íngremes para o sótão.

Dezenas de objetos e ferramentas estavam expostos no sótão, desde teares para produzir seda a esquis e sapatos de neve feitos de madeira. O piso do sótão tem espaços entre as ripas de madeira, acho que é para circulação de ar. A escada para o quarto andar estava fechada, acho que por questão de segurança, já que é uma escada dessas que você sobe usando as mãos e pés.

A vila é pequena, bonitinha, mas essa época do ano é ingrata: não tem a beleza dos montes de neve branquinha nem ainda o verde e as flores; somente os jardins secos ainda pelo frio e a lama da neve derretendo por todo lado. E claro, a chuva veio nos visitar novamente.

Paramos para almoçar em restaurante perto do centro de informações da vila, não faço a mínima idéia do nome (aliás, a gente esta colecionando todos os papéis que embalam os pauzinhos - hashis - nos restaurantes, pra depois mostrar pros amigos japoneses nos EUA e eles traduzirem pra gente). Pedi um udon com tempura de camarão que estava delicioso e bem quentinho nesse dia chuvoso e Gabe foi de arroz com porco e curry japonês, que não é picante como o curry indiano. Eles colocaram a gente em uma mesa de turista, com cadeiras, e quando percebemos que eles tinham as mesas tradicionais com tatame, pedimos pra trocar, pra espanto da garçonete que achou que os turistas gringos não iam querer uma mesa com tatame.

Fomos até o museu ao ar livre, que tem várias casas abertas a visitação com fotografias das famílias que viveram nelas. As casas foram transportadas de outras cidades onde seriam destruídas com a criação da represa para essa área e transformadas e museu. Estão muito bem preservadas, principalmente por dentro, pena que não tem os móveis e objetos expostos.

Saímos de lá com a musiquinha nos expulsando novamente, já na hora de pegar o ônibus de volta para Takayama. Shirakawa-go é mais fria ainda que Takayama, vimos a temperatura caindo à medida que o ônibus ia subindo as montanhas, saímos de Takayama de manhã com 12 graus e estava 7 graus em Shirakawa-go; na viagem de volta os termômetros na estrada marcavam 2-3 graus, brrrr.

Quando chegamos a cidade estava deserta, acho que a maioria dos turistas que veio pro festival foi embora durante o dia mesmo. Vários restaurantes estavam fechados ou fechando as 8 da noite. Felizmente o restaurante indicado pela mocinha da recepção do hotel estava aberto: Kirakuri, uma izakaya que estava bem cheia e animada. O menu era mínimo: pratos vegetarianos ou bife Hida, e um prato de peixe que não sabemos muito bem o que vinha junto. Pedimos bife Hida, e estava excelente, pedimos um a mais no final pra dividir.

Um senhor simpático que trabalha no restaurante nos trouxe sua especialidade: omelete e uma omelete doce, eu gostei e ainda comi a do Gabe que não gostou. Ele perguntou onde morávamos e quando falamos perto de Seattle ele arregalou os olhos e começou a falar do time de baseball, onde uma estrela do baseball japonês joga - como todos os japoneses que encontramos aqui, todos eles imediatamente falavam “Mariners” e “Ichiro” toda vez que a gente falava “Seattle”, haha.
















2 Responses to “Shirakawa-go, uma vila que parou no tempo”

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  1. Mauro Says:

    Muuuito legal, Lu…

  2. rosilande Says:

    A cidade parece bonitinha mesmo, as construções são interessantes e diferentes, legal o Gabe ter carregado o altarzinho e garantido um bom ano para vocês, segundo a tradição…fico impressionada com as fotos das comidas, a variedade, cor e pelo jeito o sabor é gostoso…Beijos.

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